Consumidor ainda desconfia de descontos da Black Friday; governo investiga maquiagem de preços

Evento de descontos erá em 30 de novembro. É possível se dar bem, veja dicas de especialista!

AntonMatyukha

A 8ª edição da Black Friday, data oficial de “superdescontos” oferecidos por varejistas para fiscar os consumidores, será no dia 30 de novembro. Apesar de a Black Friday ter se tornado a segunda maior data do varejo brasileiro, a adesão dos consumidores brasileiros ao evento esbarra na desconfiança em relação aos descontos.

Segundo pesquisa do Google com 1.500 consumidores de 18 a 54 anos, das classes A, B e C, de todas as regiões do país, em julho deste ano, para 37% dos entrevistados, a confiança nas promoções ainda é o principal motivo para não participar da Black Friday.

O Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), do Ministério da Justiça, está investigando se as lojas aumentaram os preços no período que antecedia a Black Friday do ano passado.

A abertura da investigação foi motivada por uma reportagem da "Folha de S.Paulo". Durante um período de 15 dias, o jornal acompanhou os preços de 6.875 itens à venda nas principais redes de varejo do país e verificou aumento nos valores antes da Black Friday. Essa alta dos preços pode indicar que boa parte dos descontos anunciados nos sites dessas lojas não representa, de fato, redução.

Segundo o ministério, o DPDC teve acesso aos preços de diversos produtos, antes e durante as promoções da Black Friday, e está individualizando e apurando a conduta das empresas envolvidas. Se a investigação chegar à conclusão de que há indícios de irregularidade, o procedimento se transforma em processo administrativo sancionatório e as redes de lojas podem ser multadas em até R$ 9,5 milhões.

A Black Friday vai acontecer em meio a um cenário de lentidão na retomada da economia. No ano passado, segundo a Ebit, empresa de dados sobre o varejo eletrônico brasileiro, a Black Friday gerou faturamento de R$ 2,1 bilhões para o e-commerce, alta de 10,3% em relação a 2016. Para este ano, os organizadores ainda não divulgaram a expectativa de vendas.

Propaganda enganosa lidera queixas

Balanço do Reclame Aqui, site que reúne queixas de consumidores, endossa os motivos de os consumidores ainda terem pé atrás com a Black Friday. A propaganda enganosa foi o principal motivo das reclamações nas últimas três edições do evento, segundo a empresa.

Esse problema recorrente inclui a maquiagem de preços, que levou os consumidores a apelidarem o evento de “Black Fraude” nas edições anteriores. A prática da maquiagem, também conhecida como "metade do dobro", consiste em aumentar os preços antes da data do evento para depois baixá-los e nomeá-los como “superdescontos”. A propaganda enganosa também inclui a diferença dos preços anunciados no momento da compra e na hora do pagamento do pedido.

Veja abaixo os dados do Reclame Aqui desde que começaram os balanços, feitos das 18h da quinta-feira, véspera do dia das promoções, até a meia-noite da sexta-feira, dia da Black Friday.

2013 - 8,5 mil reclamações

Principais queixas

•             Problemas para acessar os sites

•             Falta de estoque dos produtos anunciados

•             Dificuldade para efetuar compra

2014 - 12 mil reclamações

Principais queixas

•             Problemas técnicos para acessar sites ou finalizar compras

•             Maquiagem de preços

•             Sumiço de produtos do carrinho virtual

2015 - 4,4 mil reclamações

Principais queixas

•             Propaganda enganosa: 36,2%

•             Problemas para finalizar a compra: 9,1%

•             Divergência de valores: 7,1%

2016 - 2,9 mil reclamações

Principais queixas

•             Propaganda enganosa: 22%

•             Divergência de valores: 15,1%

•             Problemas para finalizar a compra: 12%

2017 - 3,5 mil reclamações

Principais queixas

•             Propaganda enganosa: 13,5%

•             Problemas com finalização da compra: 9,6%

•             Divergência de valores: 8,8%

É possível se dar bem

De acordo com Edu Neves, CEO Brasil do Reclame Aqui, os consumidores que se dão bem na Black Friday são aqueles que acompanham os preços antes da data de promoções e compram aquilo que eles já estavam desejando. “Se está precisando de algo e está com 20% de desconto, é um bom negócio.”

Neves afirma que o desconto médio tem sido de 25%, mas é possível achar barganhas de 40% até 70%.

Para Neves, mesmo com o desaquecimento da economia, a retração do consumo, e desemprego, inadimplência e juros em alta, as empresas têm necessidade de vender os estoques. Ele acredita que a crise leva ao alinhamento da indústria com o varejo, o que ajuda a trazer mais descontos na Black Friday.

“Fabricante e varejista se unem, o que acaba beneficiando o consumidor, pois a negociação leva a preços melhores. Quando o mercado está muito aquecido, o varejista ganha muito poder”, explica.

Segundo ele, esse alinhamento já tem ocorrido, por exemplo, entre a indústria automobilística e as concessionárias. E pode ser que isso aconteça com as fabricantes e varejistas no caso de celulares e TVs. “O alinhamento gera vantagem agressiva”, diz.

De acordo com o CEO do Reclame Aqui, uma prática que o varejista brasileiro faz é colocar em promoção os modelos de produtos mais antigos e deixar o modelo novo com o mesmo preço sugerido pelo fabricante. Aí o varejo aproveita para vender o que está encalhado no estoque impulsionado pelo lançamento de um modelo mais avançado. Isso acontece muito com smartphones e TVs, segundo ele.

“Saiu o iPhone 10, o preço em todos os sites é igual ao do fabricante, mas o iPhone 8 está mais barato. O varejista vende mais o que está encalhado”, explica.

Para Neves, se o consumidor deixasse de comprar o produto mais antigo, os lojistas poderiam passar a colocar o modelo novo em promoção.

O CEO afirma que vale a pena adiantar os presentes de Natal na Black Friday, desde que fique atento ao prazo de entrega. “Em 2015 venderam muito e não conseguiram entregar aquele volume gigantesco. Já no ano passado os grandes varejistas escalonaram a entrega, organizando de acordo com a região”, diz.

Neves pondera que os pequenos e médios varejistas, que contam mais com os Correios para fazer a entrega, podem estar mais vulneráveis a atrasos pela dependência do desempenho da estatal.

Têm ganhado espaço também na Black Friday boas promoções em gêneros de primeira necessidade, como produtos perecíveis. Segundo Neves, como o giro é alto, o setor de supermercados tem mais manobra para dar descontos.

O executivo explica que o Brasil tem um grande problema, que é a questão tributária. A cadeia do produtor até o destino final embute impostos não visíveis ao consumidor, o que acaba por subir o preço do produto.

“Não adianta sonhar em ter o mesmo desconto dos Estados Unidos porque lá o sistema tributário é diferente e flexível”, diz.

Veja as dicas de Neves para se dar bem na Black Friday:

• Vigie desde já os preços dos produtos que deseja comprar.

• Não compre por impulso. Escolha o que realmente quer comprar.

• As marcas de varejo têm antecipado o evento para o começo de novembro, o chamado Black November, para não acumular todas as vendas na última sexta-feira do mês. A B2W e Via Varejo vendem cinco vezes mais na Black Friday que no Natal. O melhor mês para o varejo online é novembro. Por isso, é possível conseguir bons descontos no período.

• Adiante as compras de Natal na Black Friday, mas verifique o prazo de entrega das lojas.

• Cheque a reputação da loja, desconfie de descontos exorbitantes e formas de pagamento com boleto e transferência bancária. Com menos dinheiro rodando na economia e muitas pessoas com nome negativado, os golpes acabam aumentando, principalmente em plataformas de marketplace.

• Pesquisas mostram que 45% dos consumidores da loja física pesquisam online antes de comprar. É possível negociar com o vendedor um bom desconto na mercadoria mostrando o preço do site.

Fonte: G1

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